OLHAR CÚMPLICE - Por Auro Malaquias


16 May
16May

Foto: Juliane Maia - Cidade de Mogi das Cruzes - SP


Ele quase não fala. É daqueles tipos que se impõem pelo jeito sereno e confiante.

Tem o ar contemplativo; o que acaba passando uma sensação de proteção a todos os que estão ao seu redor. É visto como conservador e até retrógrado simplesmente por ter o hábito de dormir cedo. Acorda, no entanto, com “as galinhas”; chova ou faça Sol. Há muito, desenvolveu este hábito. Gosta de silêncio. Barulho mesmo, só o da brisa, o das aves, ou, ainda, o farfalhar das folhas agitadas pelo vento. De família muito antiga, é respeitado e conhecido na região. Possui uma sabedoria enigmática que se esconde por trás de sua figura corpulenta e silenciosa.



Ela é cheia de vida. Vaidosa. Adora enfeitar-se. É alegre e de personalidade expansiva. Se pudesse teria a casa cheia de gente, amigos, filhos... Para ter com quem conversar, rir, cantar, aprender. Enfim, viver intensamente cada minuto.

Como estilo de vida, busca incessantemente o progresso. O que a faz trabalhar duro. Acorda cedo e dorme tarde. Progride, enriquece, é reconhecida.

De coração materno, acolhe a este como a um filho, aquele como a um irmão. Auxilia e incentiva. Abriga e orienta incansavelmente. Vigor altruísta até a medula. Mas nem tudo na vida é trabalho. Há momentos de descontração; as festas. Tem gente que vem de longe não só para aproveitar as comemorações e hospitalidade, mas também para provar uma de suas habilidades de prenda, a culinária. Sua casa fica abarrotada.

As festividades atravessam dias.

Nestes momentos de alegria e comemoração ela é o centro das atenções. Ele fica pelos cantos, observando, imerso em seus pensamentos. No entanto, é possível notá-los trocando olhares carregados de brilhos. Distantes um do outro, revelam um sentimento misterioso. Intenso o suficiente para caber em um piscar de olhos.

Entre eles, era só o que restara. Um olhar cúmplice. Misteriosamente, em algum momento de suas vidas ocorreu o “distanciar”. Aos poucos, sem que percebessem, caminhavam lado a lado, imersos, porém, em seus afazeres e pensamentos. Compartilhavam a companhia um do outro, mas, no íntimo, estavam separados. Ambos sabiam disso e com um acordo, escrito com as tintas do silêncio, seguiam suas vidas sem alterar nada.

Nem sempre foi assim.

Um dia ela chegou. Gostou da terra, do rio e estava absorta em deslumbrar a paisagem, quando, de repente seus olhos se cruzaram com os dele.

Por um momento, apenas fitaram-se em silêncio e só os corações se falaram. Daí para frente estavam sempre juntos.

Ele a fez conhecer os rios, as cachoeiras, a mais bela das flores, as matas e os arredores. Ele a protegia e fornecia tudo o que necessitava. Revelava sua natureza conservadora. Ela, por sua vez, revelava sua natureza aventureira e o divertia com histórias de terras distantes, sonhos futuristas e aventuras mirabolantes.

Riam juntos.

Ele se sentia profundamente atraído primeiramente por sua fragilidade. Depois, pelos os olhos. Resplandeciam com aquele brilho revelador de uma imensa vontade de viver. Transbordavam vida, tal qual o rio Tietê em época de cheia.

Para ela, o que mais chamava sua atenção era a segurança que ele transmitia. Seus olhos tinham um brilho revelador de uma imensa riqueza interior. Pareciam diamantes lapidados.

O casal uniu-se em harmonia, apesar de terem naturezas tão diferentes.

O fruto desta união recebe atenções, ora de um, ora de outro.

Ele incentiva os filhos a terem um contato maior com a natureza. Exercícios, caminhadas, escaladas, ar puro. Até onde a vista alcança todos se perdem em contemplações ao mirar a paisagem e sua amplidão. Ela, por sua vez, leva-os ao encontro com a tecnologia: shopping, automóveis, lan-house, brinquedos eletrônicos, trânsito, multidão. Vislumbram um mundo cada vez mais artificial e mais competitivo que se expande a todo o momento.



Atualmente, o casal passa a vida, na maior parte do tempo, alheio um ao outro. Como se não existissem. Por vezes, vêem-se de longe. Ela é gentil e o deixa seguir seu modo de vida, seus hábitos, seus costumes tão antigos que se perdem na aurora do tempo. Ele conhece histórias de casais onde um dos cônjuges perdeu todas as suas riquezas, dilapidados, arrasados, tudo por ganância desenfreada. Causadas, não pela falta de amor contido em uma separação, mas pela falta de respeito ao ambiente e a si mesmo. Sobrevivência! Porém, seu destino é diferente. Ele é preservado. Sabendo disto, algumas vezes, olha para ela e esboça um sorriso tranquilo e seguro.

Ela, por sua vez, segue sua vida, seus objetivos, seus sonhos. Quando se encontra, cansada e estressada, para e olha para ele. Observa seu silêncio, sua segurança, sua paciência eterna e isto basta para recobrar as forças e seguir em frente.

O casal segue o seu caminho. Toda noite, de longe, ele vê que ela dorme sempre de luzes acesas. Ela sabe que ele está lá, em vigília silenciosa, protegendo-a. Por isso, às vezes, cobre-se por inteira com um fino véu que ganhou dele e adornada assim dirigi-lhe uma oração, adormecendo bela.




Ele, Itapety.

Ela, Mogi.

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Auro Malaquias dos Santos


Mogi, ou melhor, Mogi da Cruzes é uma jovem cidade de 450 anos e está situada no Estado de São Paulo. Apesar de encontrar-se tão próxima à capital, preserva diversos costumes e ritmos de vida de uma cidade interiorana. Tem ainda uma imensa área verde da qual retira inúmeras riquezas e desta, a principal é a elevada qualidade de vida. Tem como destino o desenvolvimento.

O Itapety, ou melhor, dizendo, a Serra do Itapety possui desde tempos imemoriais um porte imponente e está todo coberto com a mais autêntica Mata Atlântica. Exuberante, mostra generosamente, sua fauna, flora e nascentes de águas inacreditavelmente cristalinas. Tem como destino a preservação.

Ambos caminham lado a lado alternando seus destinos.





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